Depois de escrever sobre o número e1, resolvi encarar uma pesquisa ainda maior: a história de π. Se e ficou escondido por séculos sem que ninguém percebesse, π é o oposto exato — está exposto desde sempre, na cara de qualquer roda, qualquer poço circular, qualquer olaria. O desafio nunca foi descobrir π. Foi capturá-lo com precisão, e essa caçada levou quatro mil anos, atravessou toda civilização que já desenhou um círculo, e só terminou — no sentido de "terminou de ser um mistério em aberto", porque os dígitos em si nunca acabam — em 1882.
Me inspirei bastante no História da Matemática, do Howard Eves, que dedica um bocado de páginas só às aproximações históricas de π. Aqui vai a versão que eu quis contar.
Da Babilônia aos supercomputadores: como uma civilização atrás da outra tentou capturar a razão mais simples e mais impossível da geometria.
Prólogo: o problema mais fácil de formular e mais difícil de terminar
π é a razão entre a circunferência de um círculo e o seu diâmetro. Qualquer civilização com rodas, potes ou celeiros circulares podia notar, empiricamente, que essa razão era sempre a mesma — perto de 3 e um pouquinho — não importa o tamanho do círculo. Não precisa de álgebra, nem de função, nem de processos infinitos pra desconfiar de π. Nesse sentido, é um problema muito mais democrático que e: várias civilizações, sem contato entre si, chegaram a aproximações parecidas, cada uma com suas próprias ferramentas.
O que muda de era pra era não é a pergunta — sempre foi a mesma — mas o método de aproximação. E é aí que a história vira uma corrida de revezamento de quatro mil anos: cada civilização pega o bastão de onde a anterior parou, refina a técnica, ganha algumas casas decimais, e passa adiante.
~2000–1650 a.C. — Babilônia e Egito
Uma tábua de argila babilônica (período Antigo-Babilônico, encontrada em Susa) compara o perímetro de um hexágono com a circunferência do círculo que o circunscreve. O valor implícito: π ≈ 3 + 1/8 = 3,125 — errando por menos de 0,5%.
No Egito, o Papiro de Rhind, copiado pelo escriba Ahmes por volta de 1650 a.C. a partir de um documento ainda mais antigo, resolve a área de um círculo de diâmetro 9 khet tratando-a como a área de um quadrado de lado 8/9 do diâmetro. Isso implica π ≈ (16/9)² = 256/81 ≈ 3,1605 — um erro de cerca de 0,6%.
Nenhuma das duas sabia da outra
Babilônios e egípcios chegaram a aproximações parecidas sem qualquer contato conhecido entre si, usando lógicas completamente diferentes — uma comparando perímetros, outra comparando áreas. É a primeira de muitas vezes, nessa história, em que civilizações isoladas convergem pro mesmo número por caminhos distintos.
~950 a.C. — a aproximação bíblica
Em 1 Reis 7:23 (e de novo em 2 Crônicas 4:2), a Bíblia descreve o "mar de fundição" do Templo de Salomão: uma bacia circular de dez côvados de diâmetro e trinta côvados de circunferência. Isso implica, literalmente, π = 3.
Uma correção escondida no texto?
Circula, em textos de matemática recreativa, uma curiosidade rabínica: a palavra hebraica para "circunferência" nesse versículo é escrita de um jeito ortograficamente incomum (קוה em vez de קו), e o valor numérico (guematria) das duas grafias difere por uma proporção que, multiplicada por 3, se aproxima de π com mais precisão. É uma leitura engenhosa, mas também contestada por historiadores — trato aqui como curiosidade, não como fato estabelecido. De qualquer forma, o valor "3" bíblico provavelmente reflete só o arredondamento normal de qualquer medição prática da época, não uma tentativa de precisão matemática.
~250 a.C. — Arquimedes prova, não só mede
Arquimedes de Siracusa foi o primeiro a tratar π como um problema matemático rigoroso, não uma medição empírica. No tratado Medida do Círculo, ele inscreve e circunscreve polígonos regulares num círculo — começando por um hexágono e dobrando os lados sucessivamente: 12, 24, 48, 96 lados.
A lógica é elegante: o perímetro do polígono inscrito é sempre menor que a circunferência (porque é uma linha reta cortando caminho), e o do polígono circunscrito é sempre maior (porque envolve o círculo por fora). Conforme os polígonos ganham lados, os dois perímetros espremem a circunferência entre eles, cada vez mais apertado.
Com o polígono de 96 lados, Arquimedes provou que:
Essa foi a primeira vez na história que alguém não apenas estimou π, mas provou matematicamente limites confiáveis para ele — um salto de rigor que não seria superado em método, só em escala, pelos próximos 1800 anos.
263 e 480 d.C. — China: Liu Hui e Zu Chongzhi
Liu Hui, comentando o clássico Nove Capítulos sobre a Arte Matemática, redescobriu independentemente o método dos polígonos de Arquimedes — e foi além, chegando a um polígono de 3.072 lados para obter π ≈ 3,14159, e inventando um truque elegante para estimar o erro restante sem precisar dobrar os lados indefinidamente.
Mais ou menos dois séculos depois, o astrônomo e matemático Zu Chongzhi, junto com seu filho Zu Geng, empurrou o método ainda mais longe — a tradição chinesa fala num polígono de 24.576 lados — e provou que:
355/113 é boa demais pra ser coincidência
De todas as frações com denominador menor que 30.000, nenhuma se aproxima tanto de π quanto 355/113. É o tipo de fração que só aparece naturalmente quando alguém realmente entende a estrutura da fração contínua de π, não só está adivinhando. Impressionante para o século V.
~500–1430 d.C. — Índia e a escola de Kerala
O astrônomo indiano Aryabhata (476–550), no seu tratado Aryabhatiya, dá π ≈ 3,1416 — e descreve o valor como āsanna, "aproximado". Alguns historiadores leem nessa palavra um indício de que Aryabhata já suspeitava que π não tinha um valor exato e finito — o que seria, se verdade, uma antecipação notável da irracionalidade de π, provada só séculos depois. É uma leitura debatida, mas sedutora.
E aqui reencontramos um personagem do texto sobre o número e: Madhava de Sangamagrama, da escola de Kerala, descobriu por volta de 1400 a série infinita
1424 — Al-Kashi, no observatório de Samarcanda
Trabalhando no observatório de Ulugh Beg, em Samarcanda, o matemático e astrônomo persa Jamshid al-Kashi usou um polígono de 3×228 lados — um número praticamente inimaginável de lados, calculado inteiramente à mão — para determinar π com 16 casas decimais corretas, no seu tratado Risala al-Muhitiyya ("Tratado sobre a circunferência"). Foi o valor mais preciso já calculado até então, e permaneceria recorde por quase 180 anos.
1596–1610 — Ludolph van Ceulen dá a vida pelo problema
O matemático holandês (de origem alemã) Ludolph van Ceulen passou boa parte da vida adulta refinando o método dos polígonos — chegando a usar um polígono de 262 lados — pra calcular π com 35 casas decimais. O resultado foi publicado só depois de sua morte, em 1610.
35 casas decimais, gravadas em pedra
Van Ceulen era tão orgulhoso do resultado que pediu para os 35 dígitos serem gravados em seu túmulo, na Pieterskerk de Leiden. A lápide original se perdeu com o tempo, mas uma réplica foi instalada em 2000. Não é a primeira vez, nessa série de textos, que um matemático europeu leva sua obsessão numérica literalmente para o túmulo — Jacob Bernoulli fez o mesmo com sua espiral. Na Alemanha e na Holanda, π ainda é ocasionalmente chamado de "número de Ludolph" (Ludolphsche Zahl).
1593–1706 — a virada analítica
Depois de dois mil anos de polígonos, a Europa do fim do século XVI muda de estratégia: em vez de aproximar geometricamente, passa a expressar π como um processo infinito exato — o mesmo tipo de virada conceitual que, décadas depois, faria e emergir dos logaritmos e das hipérboles.
Em 1655, John Wallis publicou seu próprio produto infinito, obtido por um método de interpolação que impressionou o jovem Isaac Newton:
E em 1673, James Gregory e Gottfried Leibniz — de forma independente um do outro, e sem saber de Madhava, na Índia, trezentos anos antes — redescobriram a mesma série que abre esta seção: π/4 = 1 − 1/3 + 1/5 − 1/7 + ⋯. É bonita, mas converge devagar demais para ser útil no cálculo prático de muitos dígitos: são precisas milhares de termos só para acertar duas ou três casas decimais.
1706–1737 — o nome "π"
O símbolo π foi usado pela primeira vez, com esse sentido, pelo matemático galês William Jones, em 1706 — mas quase ninguém percebeu. Foi só quando Leonhard Euler — o mesmo Euler do texto sobre o número e — passou a adotar e popularizar a notação, a partir de 1737, que ela pegou de vez e se tornou universal.
1768 — Lambert prova que π é irracional
Por mais de quatro mil anos, toda essa história foi, no fundo, uma caçada por uma fração cada vez melhor: 22/7, 355/113, os polígonos de Al-Kashi e van Ceulen, as séries de Madhava e Machin. Ninguém tinha provado que essa caçada era, por definição, impossível de terminar — até o suíço-alemão Johann Heinrich Lambert aparecer com uma resposta definitiva, em 1768, numa memória apresentada à Academia de Berlim.
Lambert atacou o problema por um caminho inesperado: frações contínuas. Ele mostrou que a função tangente pode ser escrita como uma fração contínua infinita e, a partir disso, provou um teorema mais geral — para todo número racional não-nulo x, tan(x) é sempre irracional.
Foi um fecho silencioso, mas decisivo, para toda a corrida de aproximações que vínhamos acompanhando até aqui: a partir de 1768, ficou provado que a busca por uma fração exata para π sempre foi, e sempre seria, uma causa perdida — só restava buscar mais casas decimais, nunca a fração final.
1949–hoje — a era das máquinas
Em 1949, o ENIAC, um dos primeiros computadores eletrônicos do mundo, calculou 2.037 casas decimais de π em 70 horas — uma tarefa que, feita à mão pelo método de Machin, levaria uma vida inteira. Foi um dos primeiros cálculos "sérios" já realizados por um computador eletrônico.
Dali em diante, a corrida virou outra coisa: não mais sobre método matemático, mas sobre poder computacional e algoritmos cada vez mais eficientes — como o algoritmo dos irmãos Chudnovsky (1989), baseado em séries do tipo Ramanujan. Os recordes hoje passam da casa dos trilhões de dígitos — em 2019, Emma Haruka Iwao computou 31,4 trilhões de casas decimais na nuvem do Google, divulgado, apropriadamente, no Pi Day.
14 de março
3/14, no formato americano de data, é celebrado como o "Pi Day" desde 1988 (criado por Larry Shaw, no museu Exploratorium de São Francisco), e reconhecido oficialmente pelo Congresso americano em 2009. Por coincidência, é também o aniversário de Albert Einstein — e, de forma mais sombria, o dia da morte de Stephen Hawking, em 2018. Existe até uma subcultura de memorização: o recorde reconhecido é de 70.000 dígitos, recitados de cabeça pelo indiano Rajveer Meena em 2015, ao longo de quase dez horas.
1882 — o fecho que π compartilha com e
Em 1882, Ferdinand von Lindemann provou que π é um número transcendente — não é raiz de nenhuma equação polinomial com coeficientes inteiros (um passo bem mais forte do que "irracional": todo transcendente é irracional, mas nem todo irracional é transcendente). Ele construiu a prova em cima do método que Charles Hermite tinha usado, em 1873, para provar a mesma coisa sobre o número e.
A ideia central é elegante, e amarra os dois textos por um fio só: Euler já tinha mostrado, décadas antes, que eiπ = −1. Hermite provou que e elevado a qualquer número algébrico não-nulo é sempre transcendente. Lindemann completou o argumento: se π fosse algébrico, então iπ também seria (i é algébrico), e pelo teorema de Hermite, eiπ teria que ser transcendente. Mas eiπ = −1, que é racional — uma contradição. Logo, π não pode ser algébrico. E essa prova, como já contei no outro texto, finalmente resolveu — depois de mais de dois mil anos — um dos problemas mais antigos da geometria grega: é impossível quadrar o círculo com régua e compasso.
É um fecho bonito por si só, mas fica ainda mais bonito visto de longe: as duas constantes mais importantes da matemática, perseguidas por civilizações completamente diferentes ao longo de milênios inteiros, terminam suas próprias histórias juntas, na mesma década, pela mesma dupla de matemáticos.
O que essa busca de quatro mil anos ensina
Se o texto sobre e mostrava uma constante escondida, revelada de repente por três caminhos independentes que convergiam sem que ninguém percebesse, a história de π é o inverso: uma constante óbvia desde sempre, cuja dificuldade nunca foi encontrá-la, mas alcançá-la — casa decimal atrás de casa decimal, século atrás de século, civilização atrás de civilização, cada uma emprestando o método da anterior e emprestando o seu para a seguinte. Nenhuma dessas civilizações trabalhou sozinha, mesmo sem saber disso: Liu Hui não sabia de Arquimedes, Madhava não sabia que seria redescoberto por Leibniz, e ainda assim todos estavam, sem saber, na mesma corrida de revezamento.
Uma seleção das obras que sustentam este texto e de boas portas de entrada para quem quiser ir além. Onde há edição em português, ela está indicada. Conferi cada referência em catálogos de editoras, de bibliotecas e de periódicos; se encontrar algum erro, me avise.
Para começar
- Howard Eves, Introdução à história da matemática, trad. Hygino H. Domingues (Editora da Unicamp, 2004), o livro que inspirou este texto.
- Petr Beckmann, A History of π (Golem Press, 1970; St. Martin's Press, 1971).
- Alfred S. Posamentier e Ingmar Lehmann, π: A Biography of the World's Most Mysterious Number (Prometheus Books, 2004).
- Lennart Berggren, Jonathan Borwein e Peter Borwein (orgs.), Pi: A Source Book (Springer, 3ª ed., 2004), uma coletânea de textos e artigos históricos sobre π.
- Carl B. Boyer e Uta C. Merzbach, História da Matemática, trad. Helena Castro (Blucher, 2012).
- MacTutor History of Mathematics, da Universidade de St Andrews: a página Pi through the ages e as biografias da maior parte dos personagens deste texto.
Fontes e estudos por tradição
- Thomas L. Heath (org.), The Works of Archimedes (Cambridge University Press, 1897), que inclui a Medida do círculo.
- Karine Chemla e Guo Shuchun, Les Neuf Chapitres: Le Classique mathématique de la Chine ancienne et ses commentaires (Dunod, 2004), com os comentários de Liu Hui.
- Kim Plofker, Mathematics in India (Princeton University Press, 2009), e George Gheverghese Joseph, The Crest of the Peacock (Princeton University Press, 3ª ed., 2011), sobre Madhava e a escola de Kerala.
- Paul Luckey, Der Lehrbrief über den Kreisumfang (ar-Risāla al-muḥīṭīya) von Ǧamšīd b. Masʿūd al-Kāšī (Akademie-Verlag, 1953), edição bilíngue, em árabe e alemão, do tratado de Al-Kashi.
As provas e a era dos computadores
- J. H. Lambert, "Mémoire sur quelques propriétés remarquables des quantités transcendentes circulaires et logarithmiques", Mémoires de l'Académie royale des sciences et belles-lettres de Berlin (volume de 1761, publicado em 1768), p. 265–322.
- Ferdinand Lindemann, "Ueber die Zahl π", Mathematische Annalen 20 (1882), p. 213–225.
- George W. Reitwiesner, "An ENIAC Determination of π and e to More than 2000 Decimal Places", Mathematical Tables and Other Aids to Computation 4 (1950), p. 11–15.
Publicado originalmente em lucasghisleni.com.
