Escritos · Ciência

O que a física já jurou ser verdade

Ciência  ·  1 de outubro de 2026 · 13 min de leitura
Ilustração do sistema geocêntrico de Ptolomeu, com a Terra no centro e os planetas em círculos com epiciclos, gravura colorida do século XVII
Scenographia Systematis Mundani Ptolemaici", de Andreas Cellarius, "Harmonia Macrocosmica" (1660). Domínio público.

Sou físico de formação, e uma das coisas que mais me fascinam na história da ciência é uma espécie de museu que ela guarda: teorias em que os melhores cientistas de uma época acreditaram, com toda a seriedade, e que depois se revelaram completamente erradas. O exemplo mais rápido é o calórico: por décadas, os físicos trataram o calor como uma substância, um fluido sutil e sem peso que passava de um corpo quente para um corpo frio, do mesmo jeito que a água desce um declive.

O que torna isso mais que uma curiosidade é que essas teorias antigas costumam coincidir com a nossa intuição de hoje. Aristóteles achava que a velocidade de um corpo é proporcional à força aplicada sobre ele, e que um corpo para de se mover assim que a força para de agir. Isso é exatamente o que a maioria das pessoas, sem estudar física, ainda acha verdade. Olhar para as teorias que a física abandonou é, por isso, um jeito rápido de entender as que valem hoje: cada uma delas morreu por um motivo específico, e esse motivo costuma ser precisamente o ponto em que a intuição comum ainda tropeça.

Neste texto, sete casos, da Grécia antiga ao século XX: o que cada teoria dizia, por que fazia sentido, o que a derrubou e o que ficou no lugar.


Sete teorias que a física levou a sério, e por que estar errado, às vezes, é preciso.

Aristóteles: o movimento que precisa de motor

Para Aristóteles (século IV a.C.), todo movimento exige uma força atuando sem parar. Solte a força, e o corpo para. Para explicar por que uma flecha continua voando depois de deixar o arco, ele propôs que o próprio ar deslocado atrás dela continuava empurrando-a. Os quatro elementos, além disso, tendiam a voltar a seu "lugar natural": a pedra cai porque seu lugar é o centro do mundo; o fogo sobe porque o seu é o céu.

É difícil exagerar como isso bate com a experiência cotidiana. Empurramos um carrinho de mão, ele desacelera e para; soltamos um objeto, ele cai. "Sem força, o movimento cessa" é a leitura mais direta e honesta do que os sentidos mostram, sem instrumentos e sem álgebra.

A primeira fissura veio só no século XIV, com o filósofo francês Jean Buridan, que propôs a teoria do ímpeto: quem lança um objeto lhe transmite algo interno, proporcional à massa e à velocidade, um precursor conceitual do que chamamos hoje de momento linear, que o mantém em movimento até ser gasto pela resistência do ar e pela gravidade. Já não era preciso um motor externo contínuo. Coube a Galileu, com seus planos inclinados, e depois a Newton, na primeira lei do movimento (Principia, 1687), formular o princípio da inércia: um corpo em movimento permanece em movimento uniforme se nenhuma força resultante agir sobre ele. A força não sustenta o movimento; só o muda.

Ainda hoje

O teste que prova que Aristóteles venceu, primeiro

Em 1985, os pesquisadores Ibrahim Halloun e David Hestenes publicaram "Common Sense Concepts About Motion", mostrando que estudantes universitários, antes de qualquer aula de mecânica, respondem a perguntas sobre movimento de um jeito sistematicamente aristotélico: acham que é preciso uma força constante para manter uma velocidade constante. Esse trabalho deu origem ao Force Concept Inventory (1992), hoje o teste mais usado no mundo para medir se alguém realmente aprendeu mecânica newtoniana, e não só decorou fórmulas.1

Ptolomeu: um sistema errado que funcionava

Por volta de 150 d.C., em Alexandria, o astrônomo Cláudio Ptolomeu descreveu, no Almagesto, um universo com a Terra fixa no centro e os planetas girando em círculos perfeitos. Para dar conta do movimento retrógrado que os planetas parecem fazer, vistos da Terra, ele usou epiciclos, pequenos círculos cujo centro percorre um círculo maior, e um dispositivo ainda mais sutil, o equante: um ponto geométrico deslocado do centro, a partir do qual o movimento parece uniforme, mesmo sem ser.

O sistema de Ptolomeu, em resumo
Deferente + epiciclo + equante = posições planetárias previstas com precisão de cerca de um grau.
Não era ingenuidade: era engenharia matemática sofisticada, empiricamente bem-sucedida, e por isso dominou a astronomia por cerca de 1.400 anos.

O sistema não caiu por um único experimento. Nicolau Copérnico propôs o heliocentrismo em 1543, mas, curiosamente, seu modelo ainda usava círculos e epiciclos, e não era muito mais preciso que o de Ptolomeu: o astrônomo e historiador Owen Gingerich, recalculando as posições planetárias pelos dois modelos, achou erros comparáveis nos dois, às vezes de dois graus ou mais.2 A virada de fato veio com Johannes Kepler, que, usando as observações precisas de Tycho Brahe, mostrou, entre 1609 e 1619, que órbitas elípticas com o Sol num dos focos descreviam os movimentos dos planetas de forma muito mais simples, sem epiciclo nenhum. Isaac Newton, com a gravitação universal (1687), deu a isso uma base física, o que tornou dispensável qualquer dispositivo geométrico artificial.

O caso de Ptolomeu é, para mim, o mais instrutivo dos sete: mostra que uma teoria pode prever bem e, ainda assim, estar errada sobre o que realmente existe. "Funciona" não é sinônimo de "é verdade", uma distinção que o senso comum de hoje, ansioso por explicações que "batem", ainda confunde.

O flogisto: o fogo que "liberava" uma substância

No final do século XVII, o alemão Georg Ernst Stahl, a partir de um esboço anterior de Johann Joachim Becher, deu nome ao flogisto, do grego "inflamável": uma substância invisível, quase sem peso, que a madeira, o carvão e os metais liberariam ao queimar ou ao serem calcinados. Um material "rico em flogisto" ardia bem; o ar servia só para absorver o flogisto liberado, e por isso o fogo se apagava num ambiente fechado, quando o ar ficava "saturado".

A teoria caiu por um detalhe que qualquer balança conseguia mostrar: metais calcinados ganham peso, o oposto do que se esperaria se estivessem perdendo uma substância. Antoine Lavoisier resolveu o quebra-cabeça entre 1774 e 1777: mostrou que o ganho de peso vinha da combinação do metal com um componente do próprio ar, o qual batizou de oxigênio. A combustão deixava de ser uma "liberação" e passava a ser uma reação química de combinação.

Pintura de Jacques-Louis David retratando o químico Antoine Lavoisier sentado à mesa de trabalho, com instrumentos científicos, ao lado da esposa Marie-Anne Paulze
Antoine Lavoisier e sua esposa e colaboradora Marie-Anne Paulze, retratados por Jacques-Louis David em 1788. Metropolitan Museum of Art. Domínio público.
O caso do flogisto na história da ciência
O filósofo Thomas Kuhn usou a substituição do flogisto pelo oxigênio como exemplo central de "mudança de paradigma", em A estrutura das revoluções científicas (1962).
Para Kuhn, os químicos flogísticos não eram simplesmente tolos: operavam sob um conjunto diferente de perguntas e conceitos, e entender isso exige olhar para a teoria antiga em seus próprios termos, não como uma versão "primitiva" da atual.

O calórico: o calor como um fluido

Formalizado por Lavoisier, em 1789, no mesmo período em que desmontava o flogisto, o calórico tratava o calor como um fluido elástico, sem peso apreciável, que permeava a matéria: corpos quentes tinham mais calórico; corpos frios, menos; e o calor "fluía" do quente para o frio. É uma teoria intuitiva ao extremo, porque descreve exatamente a sensação que temos: o calor "sai" do fogão e "entra" na mão.

O preço da política

O químico que pagou o laboratório com impostos e morreu por causa deles

Lavoisier nasceu em 1743 numa família rica de Paris. Em 1768, entrou para a Academia de Ciências e, na mesma época, comprou uma participação na Ferme Générale, a companhia privada que arrecadava impostos para a Coroa em troca de parte do que coletava. Era esse dinheiro que sustentava seu laboratório. Em 1771, casou-se com Marie-Anne Paulze, filha de um dos sócios da companhia, que traduzia textos ingleses, ajudava nos experimentos e desenhava as ilustrações. Em 1775, tornou-se um dos comissários da pólvora e passou a morar e trabalhar no Arsenal de Paris, até 1792.

Na Revolução, continuou servindo ao Estado: presidiu a comissão que recomendou o sistema métrico, em 1791. Mas a Ferme Générale era odiada como símbolo do Antigo Regime, e em 8 de agosto de 1793 a Convenção extinguiu as academias, que ele havia defendido. Em 24 de novembro, foi preso com outros ex-arrendatários, acusados de fraudes, entre elas adulterar o tabaco. O Tribunal Revolucionário o condenou e o guilhotinou em 8 de maio de 1794, aos 50 anos, no mesmo dia do julgamento.

Diz a tradição que, quando um médico apresentou aos juízes os serviços do químico à ciência, o presidente do tribunal respondeu: "A República não precisa de sábios; é preciso que a justiça siga seu curso". A frase é muito repetida, mas a Wikipédia a trata como lenda popular, e não a confirmei em fonte primária. Já a reação atribuída ao matemático Lagrange ficou famosa: "Bastou um instante para cortar essa cabeça, e talvez um século não baste para produzir outra igual" (tradução livre; as versões da frase variam).

Cerca de um ano e meio depois, Lavoisier foi inteiramente reabilitado, e seus bens foram devolvidos à viúva com um bilhete dizendo que ele havia sido condenado injustamente.

Retrato a óleo de Benjamin Thompson, Conde de Rumford, em uniforme militar
Benjamin Thompson, Conde de Rumford, retratado por Moritz Kellerhoven. National Portrait Gallery, Londres. Domínio público.

A primeira fissura foi um canhão. Em 1798, o físico e militar Benjamin Thompson, o Conde de Rumford, supervisionava a perfuração de canos de canhão num arsenal de Munique e notou que o atrito da broca gerava calor aparentemente sem fim, o bastante para fazer ferver a água ao redor do metal em poucas horas, sem que nada parecesse "se esgotar".

Benjamin Thompson (Conde de Rumford), 1798
O calor gerado pelo atrito da broca no metal parecia inesgotável, sem nenhuma perda de substância detectável no material usinado.
Se calor fosse uma substância liberada do metal, ela deveria se esgotar. Rumford concluiu, contra a teoria de sua própria época, que calor era movimento, não matéria.

Faltava medir a conversão com precisão, o que James Prescott Joule fez ao longo da década de 1840, com um aparato de roda de pás girando dentro de água: mostrou, com números, que uma quantidade fixa de trabalho mecânico produz sempre a mesma quantidade de calor, o equivalente mecânico do calor. O calor deixava de ser substância e passava a ser energia associada ao movimento das moléculas, a base da termodinâmica que se ensina hoje.

A intuição do calórico, porém, nunca morreu de verdade na linguagem: ainda dizemos que "o frio entra" por uma fresta, ou que um casaco "esquenta", como se calor e frio fossem coisas que se deslocam ou se acumulam, em vez de energia que se transfere por diferença de temperatura.

O éter: a onda que precisava de um meio

No século XIX, ficou claro que a luz se comporta como uma onda: tem interferência, difração, polarização. Mas toda onda conhecida até então, o som no ar, as ondas na água, precisava de um meio material para se propagar. Por isso, físicos como Augustin Fresnel (1817) e, depois, James Clerk Maxwell, ao unificar eletricidade e magnetismo nos anos 1860 e 1870, postularam o éter luminífero: um meio elástico, sem massa detectável, preenchendo todo o espaço, inclusive o vácuo entre as estrelas.

Em 1887, Albert Michelson e Edward Morley montaram um interferômetro extremamente sensível, sobre um bloco de pedra flutuando em mercúrio para isolar vibrações, para detectar o "vento do éter" que o movimento da Terra deveria produzir. O resultado foi nulo: nenhuma diferença detectável na velocidade da luz em direções perpendiculares. Foi, por décadas, chamado de o experimento mais famoso da história da física com resultado negativo, porque contradizia a física estabelecida sem, à época, oferecer nada para pôr no lugar.

A resposta veio com Albert Einstein, em 1905: a relatividade especial trata a velocidade da luz como constante em qualquer referencial, sem precisar de meio nenhum. O éter, simplesmente, deixou de fazer falta.

Fotografia em preto e branco do aparato do experimento de Michelson-Morley de 1887, um interferômetro montado sobre uma pesada mesa de pedra
O interferômetro usado por Albert Michelson e Edward Morley em 1887, na Western Reserve University. Domínio público.

Os raios que não existiam

Nem toda teoria superada durou séculos. Em 1903, o físico francês René-Prosper Blondlot, membro respeitado da Academia de Ciências, anunciou ter descoberto um novo tipo de radiação, os raios N (de Nancy, sua cidade), detectável por sutis variações de brilho em telas fosforescentes, julgadas a olho nu. Era a era de ouro da descoberta de radiações novas, os raios X datavam de 1895, a radioatividade de 1896, e mais de cem publicações francesas, em pouco mais de um ano, confirmaram os raios N.

O problema é que eles não existiam. Em setembro de 1904, o físico americano Robert Wood visitou o laboratório de Blondlot e, no escuro, removeu secretamente uma peça essencial do aparato, um prisma de alumínio, sem avisar ninguém. Blondlot e seu assistente continuaram relatando os efeitos normalmente, mesmo sem o prisma no lugar.3 Era só sugestão e viés de confirmação, o mesmo tipo de erro que, décadas depois, o físico Irving Langmuir batizaria de "ciência patológica", citando justamente este caso.

O universo que não teve começo

Em 1948, o astrofísico britânico Fred Hoyle, com Hermann Bondi e Thomas Gold, propôs o modelo do universo estacionário: o cosmos se expande, mas mantém densidade média constante porque matéria é continuamente criada, em taxa pequena demais para medir, preenchendo o espaço aberto pela expansão. O universo, nessa visão, não teve início nem terá fim.

A ideia evitava o desconforto filosófico de uma "origem" do universo, e era competitiva com o modelo rival, o do Big Bang.4 Mas, em 1964, Arno Penzias e Robert Wilson, dos Laboratórios Bell, detectaram por acaso um ruído de rádio isotrópico e inexplicável, depois de eliminar toda fonte de erro possível, inclusive um ninho de pombos na antena. Um grupo da Universidade de Princeton reconheceu de imediato: era a radiação cósmica de fundo, o eco previsto do universo primordial denso e quente, algo que o modelo estacionário não explicava. O universo, ao que tudo indica, teve um começo, há cerca de 13,8 bilhões de anos.5

Nem toda teoria morre

Newton, Huygens e a luz que era as duas coisas

Nem todo caso é de derrota total. Newton defendia que a luz era feita de corpúsculos; Huygens, que era uma onda num meio. Os experimentos de interferência de Thomas Young, apresentados em 1801, e sua dupla fenda, descrita em 1803, pareceram resolver a disputa a favor da onda. Mas o efeito fotoelétrico, explicado por Einstein em 1905, e a mecânica quântica que veio depois, mostraram que a luz tem as duas naturezas ao mesmo tempo, a dualidade onda-partícula. Newton e Huygens estavam, cada um, parcialmente certos: suas teorias não foram descartadas, e sim absorvidas como partes de uma descrição maior.

O que aprender com quem estava errado

Nenhuma dessas teorias caiu por falta de inteligência de quem a defendia. Ptolomeu, Stahl, Blondlot e Hoyle eram, todos, cientistas competentes, trabalhando com os instrumentos e os conceitos disponíveis em seu tempo. O que as derrubou foi sempre algo específico: um canhão que não parava de esquentar, uma balança que mostrava peso a mais, um interferômetro que não via nada, um prisma removido em segredo, uma antena limpa de pombos e ainda ruidosa.

Por isso olhar para essas teorias, e não só para as que sobreviveram, ensina física mais rápido do que parece. A pesquisa em ensino de ciências chama isso de "mudança conceitual": aprender mecânica newtoniana, por exemplo, não é só acumular fórmulas novas, é confrontar e substituir a física aristotélica que a maioria de nós já traz por padrão.6 Cada teoria morta neste texto marca, com precisão, o ponto exato em que alguma intuição comum, a nossa, hoje, também tropeçaria.

  1. O Force Concept Inventory (FCI), publicado por David Hestenes, Malcolm Wells e Gregg Swackhamer em 1992, é um teste de múltipla escolha que não pergunta fórmulas, e sim conceitos de força e movimento em linguagem simples, exatamente para expor concepções aristotélicas escondidas sob respostas tecnicamente corretas. Ele é hoje o instrumento mais usado no mundo para avaliar se um curso de física realmente muda a forma como os alunos pensam sobre movimento, e não só a nota que tiram na prova. Fonte: verbete "Force Concept Inventory" da Wikipédia. ↩

  2. O historiador da astronomia Owen Gingerich recalculou posições planetárias usando os modelos de Ptolomeu e de Copérnico tal como eram usados no século XVI, e achou erros de magnitude parecida nos dois, chegando a mais de dois graus para Marte no modelo copernicano. A vantagem real de Copérnico não era a precisão, era a simplicidade conceitual, que preparou o caminho para Kepler. Fonte: verbete "Deferent and epicycle" da Wikipédia. ↩

  3. Robert Wood publicou o relato da visita ao laboratório de Blondlot na revista Nature, em setembro de 1904, encerrando de forma abrupta e pública o episódio dos raios N. O caso é hoje citado como exemplo canônico de "ciência patológica", termo popularizado em 1953 pelo físico e químico Irving Langmuir, que citava justamente este episódio como modelo do fenômeno. Fonte: APS News, "1904: Robert Wood Debunks N-rays". ↩

  4. Fred Hoyle cunhou o termo "Big Bang" numa transmissão de rádio da BBC, em 28 de março de 1949. A lenda popular diz que o termo era pejorativo, uma forma de ridicularizar o modelo rival. Historiadores da ciência contestam isso: Hoyle, numa entrevista de 1989, negou a intenção derrisória, e notaram que, se quisesse ridicularizar o modelo, ele teria repetido o termo com frequência durante a polêmica das décadas de 1950 e 1960, o que não fez. Fonte: "Big Bang: the etymology of a name", Astronomy & Geophysics (2013). ↩

  5. A idade do universo já foi bem diferente. Em 1929, quando Edwin Hubble mostrou que as galáxias se afastam, a taxa de expansão que ele mediu, calculada com distâncias subestimadas, implicava um universo com cerca de 2 bilhões de anos, mais jovem que a Terra, já datada em vários bilhões: um paradoxo. Com as distâncias corrigidas (Allan Sandage obteve em 1958 um valor da constante de Hubble próximo do aceito desde então), as estimativas oscilaram por décadas entre cerca de 10 e 20 bilhões de anos. Os valores atuais vêm sobretudo da radiação cósmica de fundo: 13,772 ± 0,059 bilhões de anos com o satélite WMAP (2012), 13,813 ± 0,038 com o Planck (2015) e cerca de 13,8 no resultado final do Planck (2018), que obteve uma constante de Hubble de 67,4 ± 0,5 km/s/Mpc. Estrelas antigas concordam: a chamada estrela Matusalém (HD 140283) tem idade estimada de 14,27 ± 0,80 bilhões de anos, compatível com o Planck dentro da incerteza. Resta, porém, uma discordância aberta, a "tensão de Hubble": medidas locais da expansão (projeto SH0ES) dão cerca de 73 km/s/Mpc, contra 67,4 do Planck, e como uma expansão mais rápida implica um universo mais jovem, os dois métodos ainda não concordam sobre o valor exato. Fontes: Wikipédia (inglês) e Planck 2018 results. VI. ↩

  6. A teoria da "mudança conceitual" (conceptual change), formulada por George Posner, Kenneth Strike, Peter Hewson e William Gertzog em 1982, argumenta que aprender ciência exige, muitas vezes, confrontar e substituir uma concepção anterior, e não apenas somar informação nova a um vazio. Os autores se apoiam explicitamente na ideia de mudança de paradigma de Thomas Kuhn para explicar por que aprender mecânica newtoniana é difícil: não é uma lousa em branco, é uma física aristotélica intuitiva que precisa ser desmontada primeiro. Fonte: George Posner et al., "Accommodation of a Scientific Conception: Toward a Theory of Conceptual Change", Science Education 66, n. 2 (1982), p. 211-227. ↩

Fontes e leituras

Uma seleção das obras que sustentam este texto e de boas portas de entrada para quem quiser ir além. As notas de rodapé citam fontes específicas de cada ponto. Conferi as referências em periódicos, arquivos e sites de sociedades científicas; se encontrar algum erro, me avise.

  • Antoine Lavoisier, Traité Élémentaire de Chimie (1789). Sobre sua vida e a Revolução: Wikipédia (inglês) e La Suppression des Académies en 1793 (Wikisource).
  • Benjamin Thompson (Conde de Rumford), "An Inquiry Concerning the Source of the Heat Which Is Excited by Friction", Philosophical Transactions of the Royal Society 88 (1798), p. 80-102.
  • James Prescott Joule, "On the Mechanical Equivalent of Heat", Philosophical Transactions of the Royal Society 140 (1850).
  • Jean Buridan, sobre a teoria do ímpeto: verbete da Wikipédia.
  • Ibrahim Abou Halloun e David Hestenes, "Common Sense Concepts About Motion", American Journal of Physics 53, n. 11 (1985), no site do próprio Halloun.
  • Owen Gingerich, sobre a precisão comparada de Ptolomeu e Copérnico: verbete "Deferent and epicycle" da Wikipédia.
  • Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas (1962).
  • Albert Michelson e Edward Morley, "On the Relative Motion of the Earth and the Luminiferous Ether", American Journal of Science, 3ª série, n. 203 (novembro de 1887), p. 333-345.
  • George Posner, Kenneth Strike, Peter Hewson e William Gertzog, "Accommodation of a Scientific Conception: Toward a Theory of Conceptual Change", Science Education 66, n. 2 (1982), p. 211-227.
  • Arno Penzias e Robert Wilson, "A Measurement of Excess Antenna Temperature at 4080 Mc/s", Astrophysical Journal 142 (1965).
  • Sobre os raios N: APS News, "1904: Robert Wood Debunks N-rays".
  • Sobre a origem do termo "Big Bang": "Big Bang: the etymology of a name", Astronomy & Geophysics (2013).

Publicado originalmente em lucasghisleni.com.

← Todos os escritos