Escritos · Yoga e Meditação

As linhagens da yoga

Yoga e Meditação  ·  12 de abril de 2018 · 6 min de leitura

A yoga é um conjunto de práticas ou disciplinas físicas, mentais e espirituais que se originaram na Índia Antiga. Há uma ampla variedade de escolas, práticas e objetivos da yoga, relacionadas ao Hinduísmo, Budismo, Jainismo e até Sufismo. Entretanto, a yoga pode ser praticada por qualquer pessoa independente de sua religião, porque é um caminho de auto-conhecimento, e auto-conhecimento não requer qualquer visão metafísica. Requer auto-observação. Requer prática.

Como veremos, a yoga possui muitas vertentes, muitas linhagens. Muitas formas de se praticar e ensinar yoga.

Minha intenção com este texto é esboçar um panorama para conseguirmos entender qual a relação entre as várias escolas que encontramos hoje em dia.

Um pouco sobre a história da yoga

A primeira menção conhecida ao termo "yoga" data do século XV a.C., nas escrituras mais antigas da Índia, os Vedas, mais precisamente, no Ṛg Veda.

No século III a.C., no Kaṭhaka Upaniṣad se encontra a descrição da yoga a partir da filosofia sāṃkhya. Esta visão embasa as obras tidas como tradicionais da yoga: O Bhagavad Gītā e os Yoga Sūtras de Patañjali.

Como ensinamentos principais destas obras, podemos destacar no Bhagavad Gītā os quatro caminhos, quatro margas, da yoga: Karma yoga, caminho da ação. Bhakti yoga, caminho da devoção. Rāja yoga, caminho da meditação. Jñāna yoga, caminho do conhecimento. Os Yoga Sūtras de Patañjali descrevem a ashtanga yoga, isto é, a yoga de oito membros: yamas, restrições, niyamas, observâncias, āsanas, posturas, prāṇāyāmas, exercícios respiratórios, pratyāhāra, abstinência dos sentidos, dhāranā, concentração, dhyāna, meditação e samādhi.

Ainda assim, é interessante observar que essas duas fontes da yoga clássica, tradicional, antiga, virtualmente ignoram posturas e controle da respiração, cada uma dedicando não mais de dez versos a essas práticas. Elas estão interessadas na questão da salvação humana, realizada através da teoria e da prática da meditação.

Desde este período crescem as referências a yoga nos textos, alcançando o apogeu entre os séculos IV e VII d.C. Escolas e obras desse período que podemos citar:

No século X surge na Índia o Tantra. Os Tantras trazem uma nova abordagem à yoga: além de introduzir novas técnicas como visualizações, deidades e mantras, apresentam um construto conhecido como "corpo sutil" ou "corpo yogico", que é a descrição dos nāḍīs, canais, e cakras, centros do prāṇa, energia vital do corpo. Ocorre também a introdução da kuṇḍalinī, a serpente feminina que vive adormecida enrolada na base do corpo sutil, a qual pode realizar o movimento de despertar e ascender pelo canal central, suṣumṇā nāḍī.

Assim, no século XI, surge o haṭha yoga como uma ciência da respiração e do corpo sutil. Esses primeiros textos são, por exemplo, Yogavāsiṣṭha e Gorakṣa Śataka (Os cem versos de Gorakṣa).

No século XV aparece o texto mais influente da haṭha yoga, o Haṭha yoga pradīpikā, compilado por Swami Svātmārāma. O grande legado da haṭha yoga à modernidade é a combinação de āsanas, prāṇāyāmas, bandhas e mudrās na sua prática.

Do século XV a XVIII Brahmanes do sul da índia produziram novos trabalhos bebendo de fontes como o tantra hindu e da haṭha yoga. No século XVIII Śaśidhana, autor da obra Vairagyaṃvara e fundador da seita Josmanī, no Nepal, era ativista político e social, antecipou as agendas dos indianos fundadores da yoga moderna do século XIX, Swami Vivekananda e Sri Aurobindo.

Yoga moderna

Swami Vivekananda (1863-1902) é considerado o pai da yoga moderna. Introduziu com sucesso o rāja yoga às audiências ocidentais no Parlamento Mundial de Religiões, em Chicago, 1892. Para ele, o rāja yoga é a ciência da yoga ensinada nos Yoga Sūtras de Patañjali.

Sri Aurobindo (1872-1950) participou do movimento libertador da Índia e em 1921 estabeleceu a Yoga Integral, também chamada de Yoga Supramental.

Alguns mestres vieram para o Ocidente a partir do século XX e foram gradativamente estabelecendo as suas linhagens. Os mais notórios foram:

Escolas e estilos de yoga atuais, com datas de surgimento

O termo "Viniyoga" na verdade não denota um estilo, mas o caráter individual de ensino do yoga, adequado e específico a cada estudante.

Com a aceitação ampla do conceito de "yoga" no Ocidente, o termo tem sido também transferido a sistemas similares de meditação e exercícios que não são de origem indiana: Tsa lung Trul khor (Budismo Tibetano, "Yantra Yoga"), Kum Nye (prática tibetana), As Seis Yogas de Naropa, Shin Shin Toitsu-do ("Yoga Japonesa"), Daoyin (prática taoísta na China).

Conclusão

No decorrer dos últimos anos, a yoga tem sido transformada mais do que em qualquer outro momento desde o advento da Haṭha Yoga no século XI. Como afirma White (2011): "De fato, a yoga que é ensinada e praticada hoje tem muito pouco em comum com a yoga dos Yoga Sūtras de Patañjali e outros tratados de yoga antigos."

Em meio a tantas técnicas e práticas, o que podemos fazer é desejar que cheguem como ensinamentos e práticas benéficas às mais variadas pessoas. Que cada um pratique o que é proveitoso para si, com a motivação correta, na direção de realizar o que sempre foi e sempre será o objetivo profundo da yoga: união com o que há de mais profundo em nós.

Que haja virtude!

Referências

Publicado originalmente em lucasghisleni.com.

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